Osaka, Gauff e a moda transformam o branco de Wimbledon em passarela

Osaka, Gauff e a moda transformam o branco de Wimbledon em passarela

No All England Club, em Londres, o tradicional código de vestimenta todo branco de Wimbledon deixou de ser apenas uma restrição para se tornar o ponto de partida de uma das conversas mais criativas do tênis mundial. Naomi Osaka desfila até a quadra envolta em couture cerimonial japonesa com flores tridimensionais bordadas; Coco Gauff exibe looks com acabamentos de inspiração romântica assinados pela New Balance em parceria com a Miu Miu; e Taylor Fritz surge de terno de algodão de dois botões e lenço de seda da BOSS antes de entrar em quadra. A grama de Church Road nunca foi tão fashion.

O fenômeno vai além do tênis. Assim como grandes eventos esportivos ao redor do mundo vêm incorporando narrativas culturais e de identidade - vale lembrar que, no cenário dos esportes eletrônicos, a FURIA avança à final do IEM Cologne Major 2026 carregando a bandeira brasileira em outro palco global -, Wimbledon tornou-se, cada vez mais, um espaço onde esporte e expressão criativa se entrelaçam de forma inseparável. A regra do branco quase integral, em vigor desde 1877, virou o maior desafio criativo da moda esportiva do planeta.

A regra do branco: tradição que inspira em vez de limitar

O regulamento do All England Club exige que os uniformes sejam "quase inteiramente brancos", incluindo roupas, meias e até cadarços. Pequenos detalhes coloridos são permitidos em colarinhos e mangas, mas não podem ultrapassar um centímetro de largura. Logos de marcas e patches de patrocinadores são aceitos, desde que discretos. Em 2023, uma atualização flexibilizou a exigência de roupa íntima branca, permitindo que jogadoras usem peças mais escuras durante o período menstrual - uma mudança recebida positivamente no circuito feminino.

A rigidez não é nova. Roger Federer, oito vezes campeão no torneio, foi advertido em 2013 ao usar tênis Nike brancos com solado laranja vivo - e proibido de repeti-los. Andre Agassi, conhecido pelo estilo extravagante com shorts jeans e cores berrantes, chegou a boicotar três edições entre 1988 e 1990. Se a regra já gerou atrito, hoje ela funciona como combustível criativo: sem cor para distingui-los, os tenistas investem em silhueta, textura, bordado e referências culturais.

Osaka e o kimono: cultura como linguagem na quadra

Osaka, de 28 anos e quatro títulos de Grand Slam, transformou os majors de 2025 numa sequência de declarações de moda. No Aberto da Austrália, apareceu com conjunto aquamarino com saia branca e sombrinha. Em Roland Garros, uma saia preta fluida e vestido dourado. Em Wimbledon, o rigor do branco não a silenciou - pelo contrário. Seu conjunto de entrada no torneio trouxe cerejeiras e garças bordadas, inspirado no vestuário cerimonial japonês e no kimono todo branco de Lucy Liu em "Kill Bill".

Osaka, que conta com um diretor criativo próprio para seus walk-on looks, explicou a lógica por trás da escolha: "Quando penso em Wimbledon, penso no branco. Aí penso nas minhas culturas - japonesa e haitiana. E quando mergulho na cultura japonesa, penso na silhueta mais icônica, que para mim é o kimono. Você não precisa ver a cor de um kimono para saber que é um kimono." A Nike, sua patrocinadora de vestuário, produz apenas o vestido usado em quadra; os looks de entrada são comissionados e financiados pela própria jogadora.

O vestido da Nike esgotou antes mesmo de Osaka estreá-lo em público. Após vitórias confortáveis sobre Anastasia Gasanova (Rússia) e Daria Kasatkina (Austrália) nas segundas e terceiras rodadas, Osaka eliminou a número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, mantendo viva tanto a campanha quanto o desfile.

Gauff, Kostyuk e o processo por trás das criações

Coco Gauff, em parceria entre a New Balance e a grife italiana Miu Miu, optou por um visual com acabamentos de renda e detalhes que ela mesma descreveu como "românticos e femininos". A tenista explicou que o branco, por ser uma cor delicada, pediu tratamento especial: "Queríamos algo feminino porque o branco pode ser uma cor muito feminina. Adicionamos os detalhes de renda na barra e tornamos tudo mais romântico." O projeto para o torneio do ano que vem já está em andamento - parte da lógica comercial das marcas, que precisam planejar com antecedência tanto a aprovação do All England Club quanto as coleções de varejo.

Marta Kostyuk, cabeça de chave número 12, desenvolveu seu vestido em parceria direta com Joelle Michaeloff, diretora criativa de esportivo da Wilson, em uma reunião em Washington D.C. ainda em agosto de 2025. A peça, inspirada em vestido de noiva, esgotou rapidamente. "Não acontece com frequência. Já foi a segunda vez que desenhamos um vestido juntas e espero que façamos muito mais vezes", disse a ucraniana. A marca italiana Ellesse, por sua vez, revelou que o processo de aprovação junto ao All England Club levou cerca de seis meses para o chileno Alejandro Tabilo - com envio de arquivos técnicos, amostras físicas e checagem final uma semana antes do torneio.

Moda como vitrine e como identidade

Para a maioria dos jogadores, mesmo os grandes nomes patrocinados por Nike ou Adidas, os kits usados em quadra são os mesmos disponíveis para qualquer tenista no circuito. A diferença está nos contratos - alguns são pagos para vestir a marca, outros recebem o material gratuitamente sem remuneração. Isso torna o look de entrada, território de Osaka por excelência, o principal espaço de expressão individual disponível.

O terno sob medida de Fritz, o blazer preppy de Djokovic pela Lacoste e a calça rasgável de Tiafoe pela Lululemon funcionam simultaneamente como janelas comerciais para as marcas e como extensão da personalidade dos atletas. "Mostra sua personalidade, mostra interesses além dos forehand e backhand, e é bom para as marcas", disse Tiafoe em coletiva de imprensa. Com Wimbledon celebrando seu 150º aniversário em 2027, marcas e jogadores já projetam como farão seus looks brancos se destacarem numa das vitrines esportivas mais cobiçadas do mundo.